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Everything posted by Milana

  1. A nova geração de autores da teledramaturgia brasileira A partir desta segunda, o Vivo no VIVA inicia uma série especial com os novos expoentes da teledramaturgia brasileira. Os próximos autores titulares da TV Globo estarão aqui comentando suas lembranças televisivas, as novelas do VIVA, e seus próximos projetos. Três entrevistas especiais que você, certamente, vai adorar! Babilônia começou há duas semanas. Em setembro, provavelmente, será substituída pelo novo trabalho de João Emanuel Carneiro, autor de Avenida Brasil. E aí, lá em meados de 2016, a novela das 21h terá Vincent Villari, ao lado de Maria Adelaide Amaral, que estará à frente do texto. Vincent tem sua carreira atrelada a de Maria Adelaide e também a de João Emanuel. Com este, colaborou em Da Cor do Pecado, Cobras & Lagartos e A Favorita, sua primeira novela das nove. Com Maria Adelaide, estreou em Anjo Mau, colaborou nas históricas A Muralha, Os Maiase A Casa das Sete Mulheres. Foi fundamental para o sucesso da nova (e divertidíssima) versão de Tititi, que o credenciou a dividir a autoria com Maria Adelaide em Sangue Bom e na próxima das 21h. Vincent, uma simpatia, comenta aqui suas novelas preferidas e também seu livro sobre trilhas sonoras,Teletema, lançado em dezembro. - Você costuma acompanhar as novelas do VIVA? Quais suas preferidas, dentre as já reprisadas, e quais ainda espera ver no canal? Acompanhar diariamente, eu não consigo, mas, sempre que posso, eu dou uma conferida. O curioso é perceber quais obras envelheceram bem, quais envelheceram mal e quais mantêm um frescor surpreendentemente intacto. Neste último grupo, eu incluiria Vale Tudo e Barriga de Aluguel, duas novelas que continuam não só interessantes como ainda muito empolgantes e poderiam, em minha opinião, ser reprisadas sem erro na TV aberta. Uma novela que gostaria muito de ter visto novamente quando reprisou, mas não consegui, é Felicidade, do Manoel Carlos, uma obra que foi muito importante na definição da minha identidade autoral devido ao olhar terno, generoso e delicado do autor sobre os personagens. Já sobre as novelas que eu gostaria de rever, basicamente são as da minha época de infância: Roda de Fogo,Hipertensão, Bambolê, Vida Nova, a segunda versão de Selva de Pedra, Amor com Amor se Paga, O Sexo dos Anjos. E acho que boa parte do público do VIVA partilha do mesmo desejo: ver as novelas exibidas durante a sua juventude. Porque não é só da novela que você mata a saudade: é de si mesmo na época em que ela foi exibida, a casa dos pais, o cheiro do jantar que vinha da cozinha. Uma novela, devido à sua longa duração, acaba se fixando a estas memórias e evocando-as. Eu senti isso muito fortemente revendo Que Rei Sou Eu?, por exemplo. - Você é noveleiro de carteirinha, pelo que pude notar em trabalhos como Tititi, repleto de referências a tramas de Cassiano Gabus Mendes, autor da versão original, e outras obras, em especial, dos anos 80. Recordo, principalmente, das cenas em que Suzana (Malu Mader) era tratada por Fera Radical; em especial, por Jaqueline (Cláudia Raia). A novela de Walther Negrão é uma das mais pedidas pelo público do VIVA nas redes sociais. Poderia nos falar mais a respeito de sua relação com esta trama? É interessante lembrar que Fera Radical, quando foi exibida, era vista como apenas mais uma novela das seis. Sobretudo por ser exibida ao mesmo tempo que Vale Tudo eBebê a Bordo, duas novelas de avassaladora repercussão na época. Curiosamente, Fera Radical acabou se tornando, ao longo do tempo, um fenômeno cult. Acho que a vocação pop de Fera Radical se deve principalmente ao seu ponto de partida. Havia um quê de delirante, de tarantinesco na imagem de Malu Mader, típica gatinha do Posto 9, dando vida a uma mulher rancorosíssima, decidida a destruir a vida de todos os personagens da trama para se vingar do extermínio de sua família. A abertura, com Malu pilotando uma moto, prometia muita aventura, e a novela era de fato empolgante – a começar pelo título, um achado simples e sensacional. Outra coisa interessante de ser lembrada é que, enquanto o foco da personagem consistia em prejudicar a vida dos suspeitos pelo extermínio e de suas famílias por tabela, a novela não pegava no gosto popular: Cláudia (Malu) não era uma personagem por quem o grande público torcia. É que este costuma se identificar com os personagens que desejam se vingar, não com os que concretizam a vingança (basta observar o fenômeno que foi Avenida Brasil: Nina(Débora Falabella) desejava destruir Carminha (Adriana Esteves), mas sua boa índole a forçava a levar sempre em consideração as demais pessoas que poderiam ser afetadas. Quando, na segunda metade, Cláudia assumiu o amor por Fernando (José Mayer) e focou sua vingança em uma única personagem – Joana (Yara Amaral), a mãe de Fernando, que se revelou um monstro, deixando claro assim que Cláudia era a heroína -, aí, sim, a novela conquistou o grande público. É verdade que Fera Radical, a partir de então, abraçou uma divertida esquizofrenia: ora Cláudia dizia que a vingança era a única coisa que lhe importava, ora dizia que sem Fernando sua vida não fazia o menor sentido (e houve momentos em que ela disse ambos os textos na mesma cena!). Tudo isso até culminar em um dos momentos mais radicais da nossa teledramaturgia, quando Cláudia, grávida e vestida de noiva, se digladia com a sogra, abate-a a tiros (por “legítima defesa”, vá lá) e foge em sua moto. Absolvida e perdoada por todos, Cláudia termina feliz para sempre com Fernando – os dois morando no mesmo sítio em que a mãe dele exterminou a família dela e em que ela matou a mãe dele! Não é incrível? Fera Radical era, em suma, uma novela mutcho loca, tão empolgantemente despudorada quanto os faroestes de Sergio Leone ou os filmes do já citado Tarantino – guardadas as devidas proporções, é claro, afinal estamos falando de uma novela das seis. Se o VIVA se dispusesse a reexibir este ícone pop da nossa teledramaturgia, seria sensacional, pois Fera Radical é o tipo de novela que faria o público das redes sociais se esbaldar. - Seu primeiro trabalho, Anjo Mau, fora reprisado recentemente no Canal Viva, bem como as minisséries A Muralha, Os Maias e A Casa das Sete Mulheres. Você pode acompanhar estes trabalhos? Qual a sensação de ver tais produções, apenas como telespectador, longe da obrigação de entregar capítulos? Acredita que não consegui ver nenhuma dessas reprises? Só um pouco de Anjo Mau, adorava a novela, adoro até hoje, principalmente a segunda metade, quando a trama toma um contorno mais sombrio, mais violento, e o conteúdo político ganha o primeiro plano. - Você lançou recentemente, em parceria com Guilherme Bryan, o livro Teletema: a história da música popular através da teledramaturgia brasileira. Poderia nos falar mais sobre a confecção da obra? Quais temas de novelas já exibidas pelo Viva você considera emblemáticos para a história das trilhas sonoras? O livro levou quatorze anos para ser feito – o Guilherme Bryan, que teve a ideia após lançar um livro excelente sobre a cultura pop brasileira dos anos 80, ‘Quem Tem Um Sonho Não Dança’, me convidou para conceber o projeto com ele em 2000. Como o volume de informações coletadas em pesquisas e entrevistas (mais de 130, feitas com compositores, intérpretes, produtores musicais e autores de novelas) foi maior do que imaginávamos, focamos em um período específico – no caso, entre 1964, quando o conceito da trilha de teledramaturgia lançada comercialmente começa a ser esboçado, até 1989, quando este tipo de coletânea atinge o auge no número de vendagem. No livro, dividimos estes 25 anos em quatro fases, analisando histórica e culturalmente cada uma delas, e depois comentamos trilha por trilha, faixa por faixa, abrangendo a produção de todas as emissoras brasileiras. A principal função deste registro, creio eu, é retratar como a teledramaturgia foi fundamental para o desenho da música brasileira da década de 70 em diante, não só em termos de repercussão, mas também de criação. A trilha de Roque Santeiro, em minha opinião e na do Guilherme também, é a melhor de todas, não apenas por sua indiscutível qualidade musical, mas pela forma como as músicas aderiram aos personagens e, ainda hoje, são lembradas pelo público que viu a novela: o tema da viúvaPorcina (Dona, com Roupa Nova), do Roque (De Volta pro Aconchego, que Elba Ramalhoconsidera a música mais importante de sua carreira, graças à novela), da dona Lulu (Vitoriosa, de Ivan Lins), do lobisomem (Mistérios da Meia Noite, com Zé Ramalho), do Sinhozinho (Isso Aqui Tá Bom Demais, com Dominguinhos e Chico Buarque), de dona Mocinha (Chora Coração, de Wando) e tantas outras. No CD do livro, lançado pela Som Livre com 17 faixas muito representativas, há temas de muitas obras já reprisadas pelo VIVA, como Água Viva(Menino do Rio, de Caetano Veloso, com Baby do Brasil), Vale Tudo (Brasil, com Gal Costa), Dancin’ Days (o tema de abertura homônimo, com as Frenéticas) e Anos Dourados(o tema de abertura homônimo, com Tom Jobim
  2. Os 25 anos da Sucateira mais famosa do Brasil Maria do Carmo (Regina Duarte) (Foto: CEDOC/TV Globo) “Coisas de Laurinha” “Eu quero a prédio na chón!” “Sucateeeeeeeeira!” “E-o e-o... me chama que vou vou!” Ainda que você não fosse nascido em 1990, conhece as referências acima. A novela “Rainha da Sucata” marcou a história de nossa TV. Está completando 25 anos de estreia neste dia 2 de abril. Foi o primeiro folhetim de Silvio de Abreu no horário nobre. O autor vinha de sucessos com comédias do horário das sete nos anos 80 (“Jogo da Vida”, “Guerra dos Sexos”, “Cambalacho”, “Sassaricando”). E já foi exibida no VIVA, entre janeiro e setembro de 2013. Paula (Claudia Olhana) e Edu (Tony Ramos) (Foto: CEDOC/TV Globo) Todo mundo já viu (nem que seja uma cena no Youtube): Laurinha Figueroa (Glória Menezes) se jogando do alto do prédio da Sucata (aquele ali na Avenida Paulista) enquanto Maria do Carmo gritava “LAURINHAAAAAAAAAAA!”. Ou Dona Armênia tratando os filhos como “meus três filhinhas”, falando “beijinho no mamãe” e, sua frase mais famosa, “quero a prédio na chón!”). Também Antônio Fagundes, meio bobalhão, gago, de óculos emendado com esparadrapo, dividido entre a “bailarina da coxa grossa”, a desastrada Adriana (Claudia Raia), e o "purgante", que depois virou a “biscate”, Nicinha (Marisa Orth, hilária). Tinha Daniel Filho como o vilão tocador de trompete Renato Maia, Raul Cortez de mordomo inglês, Nicette Bruno, como a portuguesa Neiva, a esnobe Isabelle de Bresson (Cleyde Yáconis estreando na Globo, tardiamente), a francesinha Ingrid (Andrea Beltrão), e o espirituoso Betinho “coisas de Laurinha” Figueroa (Paulo Gracindo). Dona Armênia (Aracy Balabanian), Gerson (Gerson Brenner) e Geraldo (Marcello Novaes)(Foto: CEDOC/TV Globo) E cada um pode citar alguma passagem que mais lhe marcou dessa novela. A minha: logo no início tem a participação de Fernanda Montenegro, como Salomé, a vizinha que tinha um caso com o pai de Maria de Carmo (Regina Duarte), Seu Onofre (Lima Duarte), e que faz um escândalo memorável no velório dele, batendo boca com a viúva, Neiva (Nicette Bruno), em pleno cemitério. A história de Maria do Carmo (Regina Duarte), de origem humilde, mas que enriqueceu a partir de um ferro-velho (daí o título da novela). Mulher extravagante, cafona, que sonhava em se casar com seu amor da juventude, o quatrocentão falido Edu (Tony Ramos). Que ódio desse Edu! Mas ela tinha que disputá-lo com a madrasta do rapaz, Laurinha Figueroa (Glória Menezes), socialite arrogante, apaixonada pelo enteado. Isabelle de Bresson (Cleyde Yáconis) (Foto: CEDOC/TV Globo) "Rainha da Sucata" vinha no rastro do sucesso da lambada, mostrada na abertura ao som do hit “Me Chama Que Eu Vou”, cantado por Sidney Magall. De quebra, Maria do Carmo lutava na justiça pela posse de um prédio na Avenida Paulista, onde mantinha a Sucata, uma casa de shows – que tocava lambada, lógico! Dona Armênia (Aracy Balabanian) se dizia proprietária do terreno e seu bordão foi um grande sucesso na época: “Quero a prédio na chón!”. Outro bordão da novela que caiu na boca do povo foi “coisas de Laurinha”, repetido pelo ricaço falido Betinho Figueroa (Paulo Gracindo), sempre se referindo à sua mulher Laurinha. Ela, por sua vez, termina a novela suicidando-se para culpar sua inimiga Maria do Carmo: se joga do alto do prédio da Sucata, numa sequência antológica. Adriana (Claudia Raia) e Caio (Antônio Fagundes) (Foto: CEDOC/TV Globo) Mas nem tudo foram flores. O início da novela foi complicado. A trama começou com rejeição endossada pela mídia. Em 1990, Fernando Collor havia sido recém-eleito presidente da República, e seu plano econômico, que confiscava as cadernetas de poupança, foi lançado enquanto “Rainha da Sucata” estava começando. Foi quando a Globo foi acusada de saber das intenções de Collor e não ter alertado a população, já que a novela tratava desses assuntos quentes. Na realidade, por causa do plano do governo, várias cenas tiveram que ser refeitas às pressas, para incluir essa nova realidade dentro das tramas dos personagens. Aproveitando o alarde para desqualificar a novela de Silvio de Abreu, muito se comparou “Rainha da Sucata” com “Pantanal”, folhetim de Benedito Ruy Barbosa que fazia o maior sucesso na TV Manchete. Só que as duas novelas não eram concorrentes. A trama da Manchete começava depois que terminava a da Globo (se chegaram a bater de frente, foi por no máximo dez minutos). Por isso, na época, a Globo aboliu as “cenas dos próximos capítulos” (expediente que retornou logo depois), para segurar o telespectador para a atração seguinte, sem dar tempo para trocar de canal. Mas de nada adiantou: “Pantanal” foi mesmo um sucesso absoluto. Laurinha Figueroa (Glória Menezes) (Foto: CEDOC/TV Globo) Passaram-se 25 anos, os emergentes de ontem são chamados hoje de “nova classe C”, enquanto biscate hoje é periguete. Mudou a forma de assistir TV e a relação que o brasileiro tem com ela. Mas “Rainha da Sucata” fica em nossa memória afetiva, pelas tramas envolventes, ora emocionantes, ora hilariantes, e pela galeria de personagens inesquecíveis.
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